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Pobreza é escolha? Ou falta dela?

Sobre meritocracia como critério de avaliação do sucesso em âmbito social

Todos nós sabemos que acomodação, desistência ou mesmo carência de esforços condenam aqueles que submetem-se a tal à incapacidade de ascensão e elevação. Isto é um fato inegável.
Um funcionário de uma empresa que, em tempos competitivos como os nossos, não se atualizar, não se superar, jamais receberá uma promoção, por exemplo. A isso chamamos gratificação por mérito, a “meritocracia”.

Essa ideia, de que sucessos são produto de mérito e esforço, não é em si daninha, porém tem lá seu horizonte de validade, e sobre isso precisamos tratar se quisermos livrar-nos ou livrar alguém querido da concepção de pobreza como resultado de escolha.

E como podemos medir as situações, compreendendo quais adequam-se corretamente à ideia meritocrática e quais não?

Ora, não é muito complicado. Várias realidades do nosso quotidiano lidam com um sistema de gratificação por méritos, e poucas delas são essencialmente questionáveis. Tomemos alguns exemplos:

– Escolas e Universidades, onde provas, exercícios, testes e atividades múltiplas determinam uma “nota”:

Especialmente nas escolas primárias e secundárias, temos um ambiente constituído por indivíduos de uma mesma faixa etária com acesso aos mesmos professores, mesmas explicações e, em alguns casos, mesmos materiais didáticos. Obviamente, ambientes familiares distintos podem proporcionar mecanismos adicionais ao aprendizado, mas o básico, o que é matéria de aula, é compartilhado. Embora nas Universidades não tenhamos pessoas com idades tão uniformes quanto nos modelos anteriores, temos uma idade e escolaridade mínima, compartilhada por todos.

Observações e críticas cabem ao modelo, cabem também exceções, mas, para nossa concepção aqui, temos algo próximo de justiça na conclusão: quanto mais um aluno se esforce, seja atendendo às atividades em sala, seja ultrapassando essas tarefas com atividades externas, melhores serão suas notas. De um modo global e abstrato, recompensa-se com melhores notas utilizando o critério do mérito.

– Ambientes de trabalho, onde pares possuem as mesmas atribuições, mesmos requisitos mínimos para ingresso, mesma carga horária, salário relativamente igual:

Ainda que nepotismo, joguetes e manipulações firam a pressuposta justiça neste caso, é a maneira como devemos esperar que seja a ascensão profissional. Quanto maior o esforço aplicado no bom cumprimento das demandas atribuídas ao funcionário, maior a possibilidade de promoções e bonificações.

– Concursos e seleções, em que editais ou acordos de inscrição fixam pontos de partida e exigências:

Seja um concurso público para atendimento de vaga, seja um concurso de talentos, uma seleção de equipe específica, o mérito, considerado por resultado de prova, testes de aptidão ou mesmo juri de apreciação é critério para escolha e premiação.

Há, também, situações que atrapalham o entendimento de justiça, como nepotismo, favorecimentos, fraudes, mas foquemos no modo convencional, esperado para a decisão.

– Ambiente esportivo, onde atletas treinados e com aptidões similares competem por premiações:

Aqui, nada ilustra tão bem quanto lutas e artes marciais.
Tomemos o boxe, no qual categorias são formadas com base na constituição física dos indivíduos, garantindo que os atletas enfrentem oponentes de compleição muito similar à sua, nunca combatendo outros muito inferiores ou muito superiores a si.

Há justiça quando aquele mais resistente, mais bem treinado e preparado será, em condições normais, o vencedor.

– Eleições de agremiações:

Não refiro-me aqui a eleições para membros dos poderes Executivo e Legislativo uma vez que, vivendo numa oligarquia, não há mesma cadeia de requisitos entre os que competem, mas mais a eleições de grêmios, síndicos, representantes de determinada organização de classe e afins. Nestas situações, pessoas competem em nível equilibrado, sendo (com exceções, é claro) escolhido aquele mais apto para a função.

– Jogos e competições:

Com caráter menos formal, já que não profissional, o videogame voltado para adultos exemplifica perfeitamente. Neles, especialmente aqueles com competições públicas online (FPS, futebol, MMORPG), maior a dedicação em treino e experiência por repetição, melhor o desempenho e, consequentemente, melhores os resultados finais.


Todas as situações corriqueiras apresentam uma relação diretamente relacionada à aplicação de esforço, dedicação e, em consequência, premiação por estes, constituindo um sistema onde o mérito é agraciado. E, apesar de possíveis vícios processuais e obstáculos individuais, vemos geralmente justiça funcionando.

No entanto, qual ou quais elementos precisam ser abstraídos em nossa análise e ressíntese para que obtenhamos a receita da manutenção desse senso de justiça nas situações? E, com olhar cuidadoso, a resposta flui naturalmente: em todos os casos citados, os indivíduos que competem ou disputam as posições e os sucessos possuem caracteres em comum. Vejamos alguns:

– Mesmo ponto de partida: todos os indivíduos possuem, basicamente, os mesmos requisitos mínimos. Sem estes, seu ingresso no grupo competitivo é rejeitado.
– Crianças, para ingressar numa turma escolar, devem possuir idade e escolaridade prévia mínima;
– Funcionários, numa seleção de vaga, devem possuir Curriculum que cumpra determinadas exigências;
– Concursos possuem editais ou regulamentos, que declaram requisitos básicos;
– Esportes possuem Associações ou órgãos, e as competições dependem de regularidade junto a esses;
– Agremiações convencionam sobre os requisitos essenciais aos eleitos;
– Ninguém joga videogame sem videogame ou compete via internet sem acesso à Internet.

– Mesmo conjunto de ferramentas: possuindo os mesmos requisitos mínimos, ingressam no grupo e, nele, dispõem, basicamente, dos mesmos mecanismos de ação que todos os demais membros.
– Crianças, como dito, possuem mesmo professor, mesmo espaço físico, mesmos mecanismos auxiliares, etc.;
– Funcionários possuem mesmo espaço físico, mesma carga horária, mesma atribuição, mesmos mecanismos;
– Concursos públicos são realizados em mesmo espaço genérico, com mesmo tempo de prova, mesmos testes;
– Atletas disputam o mesmo esporte, no mesmo espaço físico, com mesmos obstáculos ou dispositivos;
– Agremiações possuem mesmo período de campanha;
– Nos videogames, uso de periféricos (controladores, joysticks, etc.) diferenciados constitui o “cheat”, trapaça, e deslegitima um jogador.

– Mesmo horizonte de oportunidades: ainda que de modo abstrato, possuindo mesmo ponto de partida e mesmos conjunto de ferramentas, o diferencial será o uso daqueles.


Sabendo disto, deixemos as situações particulares e passemos a fazer o mesmo esforço analítico no nosso objeto primeiro, o sucesso no âmbito social, que, de acordo com a “meritocracia”, seria definido pelo empenho e dedicação.

Comecemos, portanto, pela educação, que, segundo Mandela, “é o grande motor do desenvolvimento pessoal. É através dela que a filha de um camponês se torna médica, que o filho de um mineiro pode chegar a chefe de mina, que um filho de trabalhadores rurais pode chegar a presidente de uma grande nação.”

No Brasil, conforme dados da ONG “Todos pela Educação” (ref. 2014), apenas 93,6% da população possui acesso à educação. Destes, sabemos que apenas 8% são plenamente alfabetizados. Ainda, 22% dos estudantes saem do Ensino Médio sem saber ler, nos diz o MEC (ref. 2015).

Ora, mas antes não dissemos que bastaria aos ingressos na escola o esforço para o sucesso?

Na verdade não é tão simples assim.
Dados de avaliação nos permitem, facilmente, identificar carência nos mecanismos esperados para o sucesso dos alunos, quando na educação pública.

Tal constatação nos leva, necessariamente, a conceber a ideia de profunda desigualdade entre as bandas de desenvolvimento dos alunos, sendo parâmetro real o potencial da instituição em entregar conhecimento. Uma instituição precária disponibilizará uma banda entre o zero e bem pouco conhecimento, enquanto uma instituição com alto poder de investimento ofertará resultados infinitamente superiores.

Se, numa situação de competição entre indivíduos destas instituições, buscarmos comparar um e outro, apesar de seus esforços particulares, é impossível que haja justiça, já que um deles foi, por dolo ou irresponsabilidade, privado de um mínimo. Tal refletirá no ambiente de trabalho, onde a competição também será impossível. Um deles estará irremediavelmente sujeito a remuneração inferior à do outro, enquanto menos qualificado. Menor remuneração, menor qualidade de vida e, consequentemente, menos mecanismos possíveis para a superação do obstáculo.

Vivemos num país de baixíssima escolaridade, pouca ou nenhuma educação sexual (lembre-se que “Escola sem Partido” é um movimento forte, com suporte clerical, que busca vigorosamente retirar dos curricula escolares qualquer trato, em sala, de sexualidade, gênero e, automaticamente, anticoncepção e responsabilidade sexual), baixíssima renda média (R$ 597,00 per capita, no Maranhão, segundo IBGE), corrupção desenfreada, carga tributária pesadíssima e números inadmissíveis de desemprego.

Num cenário assim, como podemos equiparar os pontos de partida de indivíduos privados do direito à alfabetização com outros, privilegiados, que estudam em escolas com mensalidades que chegam aos R$ 3.260,00, possuem amplo suporte familiar, alimentação excelente, bom sono, privacidade? Ora, não podemos.

Como podemos esperar que uma funcionária administrativa de limpeza, em São Paulo, que trabalhe todos os dias e gaste quatro a seis horas/dia em locomoção, crie sua família e compense a lacuna educacional a que foi submetida? E como podemos esperar que essa mesma funcionária compense, com investimentos financeiros, a privação educacional a que seus filhos estão sujeitos?

Pode-se, numa tentativa irracional de consideração, acusá-la de ser incapaz de ter filhos, já que não possui meios adequados para superação de sua realidade. Pode-se. E é uma coisa que se faz com frequência. Mas analisemos a situação também:

Nenhum método anticoncepcional atualmente garante eficácia total na prevenção de uma gravidez. Camisinha, método barato e, inclusive, subsidiado à população pelo Estado, sofre grave rejeição em consequência da falta de educação sexual, já mencionada antes. DIU, método funcional e relativamente efetivo, tem custo proibitivo à maior parte de nossa população (e, mesmo assim, não garante efetividade plena). Aborto, que é meio reparatório e mecanismo de saúde pública, nem sequer é matéria de debate no Brasil, já que condenado pela cristandade, que forma 86,2% da profissão de fé em nosso país.

Ora, como é possível sermos simultaneamente contra a educação sexual e o aborto e, ao mesmo tempo, condenarmos a natalidade? E como é possível sermos contrários a auxílios financeiros, com caráter de assistência social, e condenarmos a submissão de grande parte da população à privação e à incapacidade de superação do status corrente, apesar dos esforços?

Precisamos abandonar a visão individualista ou irrealista da vida, que prende-se ao conceito de mundo como meus iguais. Não, o mundo não é feito dos meus iguais a menos que este conceito diga respeito a toda minha espécie, que está submetida a incontáveis variáveis, sobre as quais não falamos nem de um par.

Cabe, ainda, ressaltar que o privilégio, no âmbito social, não é culpa do privilegiado, e que não se está propondo aqui o abandono dos mecanismos na própria formação em nome de uma pretensa justificação forçada. Porém, e talvez caiba como uma excelente conclusão, do mesmo modo que o privilégio não é culpa do privilegiado, a pobreza, que é consequência da privação, não é culpa de quem a sofre.

Pobreza não é, portanto, escolha, já que é consequência de um sistema inteiro de desigualdade, que reage em cadeia e, salvo raríssimas exceções (que busca-se utilizar como “fenômenos empíricos”), condena à perpetuação do modelo desigual, cruel e injusto ao qual estamos hoje submetidos.

Termino com uma pergunta muito franca, que peço seja matéria de reflexão particular a quem tiver chegado até aqui:

Se você estivesse em situação de grave fragilidade, tendo que privar-se do sono, da qualidade de vida, da curiosidade, do trato com os filhos, de boa alimentação, boa educação, de viagens, da aquisição de bens de consumo, e tudo que te separasse do mundo almejado fosse o esforço, você se acomodaria? Se não, por que acredita que alguém esteja fazendo isso?

 

Perfil do Autor

Mario Feitosa
Mario Feitosa
Músico de rua, compositor, especialista em Tecnologia, autor de "A Dor, o Amor e Ser, um infeliz folhetim de poemas pouco - ou nada - poéticos" e estudante de língua portuguesa.

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