,


A grife Apple: da inovação ao luxo

Em meados da década de 1970, Steve Wozniak construiu seu primeiro computador para uso pessoal. Estudante da Universidade da Califórnia, o jovem Woz assumia a vanguarda da inovação digital em uma das regiões mais fervorosas para a computação nos Estados Unidos, o Vale do Silício. Em parceria com um colega alguns anos mais jovem, Steve Jobs, os dois garotos venderam seus bens mais preciosos e arrecadaram a incrível quantia de 1300 dólares, o suficiente para que Wozniac e Jobs projetassem o que é considerado por muitos o primeiro modelo de um computador pessoal acessível ao mercado, o Apple I. Desse ponto a empresa dos Steves decolou. Modelo após modelo, os computadores da Apple dominavam cada vez mais um mercado que eles próprios criavam, sempre buscando o novo, o inovador, a tecnologia de vanguarda. Jobs declarava explicitamente que a base da sua companhia era de ditar tendências tecnológicas, buscando soluções simples para facilitar a vida das pessoas. Esse era o mantra do fundador da empresa. Hoje, aparentemente, uma ideologia que mostra-se apenas particular de seu patrono.

A Apple sempre foi uma empresa de inovações. Inovadora não necessariamente significa que era original em todos os seus produtos. Jobs, Woz e seus colegas eram conhecidos como os Piratas do Vale do Silício, por sua ousadia em aproveitar as ideias desenvolvidas nesse ambiente fértil do florescer de novas tecnologias em seus dispositivos. O mouse, por exemplo, utilizado pela primeira vez em um computador pessoal no Apple Lisa, não era de propriedade criativa (nem patente) de um dos fundadores da empresa da maçã. No entanto, foi com a inserção do roedor nessa versão do computador no mercado que o modelo do apontador cartesiano se popularizou, tornando-se indispensável para o uso moderno de PCs. O caráter inovador da Apple era de tomar as rédeas da tecnologia e dominar o mercado com base nisso. A genialidade de Jobs ia muito além de desenvolver dispositivos e chips poderosos: ele conhecia como popularizar, tornar acessível e revolucionar o mercado da computação mundial. Foi assim com o Apple I; foi assim com o iPhone; foi assim com o iPad. Mas a macieira não colhe mais dos mesmos frutos.

Toda essa retrospectiva é a base para um debate interessante sobre o destino da empresa de smartphones mais famosa do mundo e, como consequência, o rumo do mercado de informação no planeta. Neste final de ano, Tim Cook anunciou o mais novo mobile da companhia, o iPhone X, com um preço base assustador de mil dólares. Para uma comparação direta, a maior concorrente da Apple, a Samsung, tem seu mais moderno smartphone por 200 dólares a menos. O que o CEO da maçã nos quis dizer com isso, afinal? Sem nenhuma grande novidade que justificasse o preço elevado do dispositivo, a Apple se projeta a um novo nível, além de suas origens, além do Vale do Silício. De olho nos números de seus concorrentes coreanos e chineses, a empresa de Cook assume o poder sobre sua marca e toma uma decisão que pode ser a última grande inovação da companhia: elevar-se (ou rebaixar-se) ao lado de grandes grifes mundiais. Uma cartada genial de uma empresa criadora de mercados. Afinal, qual outra marca produz portáteis de luxo?

Há alguns anos a maçã mordida ganhou um valor de status social além do que poderia sequer ser imaginado por Wozniak, nem em seus sonhos mais capitalistas. No revés de grandes companhias de inovação como a Tesla ou o Google, a Apple nos chama a atenção de como o mercado é dominador sobre a produção de conhecimento tecnológico. Uma lição importante que pode-se tirar do anúncio da empresa de Cupertino é, acima de tudo, como a tecnologia (principalmente na computação) dia após dia abandona suas origens inclusivas e life-changing de grandes mentes como Linus Torvalds e se curva aos índices que sobem e descem em Wall Street. Nesse contexto, podemos refletir sobre o que a informação se tornou e como o mercado de dados é um negócio cada dia mais lucrativo e invasivo; como as pessoas passaram a valorizar a computação como instrumento de ostentação e autoafirmação, nos moldes de joias e carros esportivos; e acima de tudo, o que pode nos aguardar, já que nos entregamos cotidianamente a essas empresas em troca de algum novo tipo de conforto que dizem poder nos propiciar.

E que acreditamos, quase sempre, sem questionar.

 

Para saber mais:

  1. Apple I, em Guia do Hardware. Disponível em <http://www.hardware.com.br/termos/apple-i>
  2. BARDINI, THIERRY. Bootstrapping: Douglas Engelbart, Coevolution, and the Origins of Personal Computing. Editora Stanford. 2000.
  3. Samsung Galaxy S8 – Best Buy. Disponível em <http://goo.gl/bZrvCM>
  4. Samsung lidera mercado mundial de smartphones. Disponível em <http://goo.gl/ivBskP>
  5. Anúncio do novo iPhone X. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=UD35mkxdLnU>

Perfil do Autor

Pedro Guilherme Contieri
Pedro Guilherme Contieri

Leitor, escritor e agregador de conteúdo nessa nuvem de dados

em movimento que chamam de realidade. Mecatrônico de formação, acha que os algoritmos vão dominar o mundo. Isso se ainda não o fizeram.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Loading…