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Jim & Andy – The Great Beyond

Em 1923, no texto O Ego e o Id, Sigmund Freud apresenta ao mundo uma distinção entre três forças psíquicas capazes de explicar de modo interessante a motivação de nossos desejos, sofrimentos, angústias entre outros.

De modo muito resumido, o Id – termo em alemão para “isto” – é nosso componente nato e representa nossos desejos primitivos e desconhece qualquer noção moral. O Ego é nossa identidade e personalidade formada a partir de nosso contato com outros seres humanos. Nosso Superego corresponde a nossas categorias éticas, nosso ideal de comportamento e é construído a partir do Ego.

Essa brevíssima introdução talvez nos ajude a compreender porque Jim & Andy – The Great Beyond é tão fantástico ao mesmo tempo que nos faz olhar para o filme original, O Mundo de Andy com outros olhos, bem a maneira hegeliana de suprassunção – que para quem não sabe consiste em ressignificar o passado a partir de informações disponíveis por nossa experiência vivida.

O documentário em si se trata das fitas que Jim Carrey guardou em seu escritório por vinte anos após filmar O Mundo de Andy. O filme é interessante apenas – e grifem esse apenas – porque Jim passou a interpretar Andy mesmo longe das câmeras e porque ele é um gênio como ator. Um gênio comparável aos grandes do cinema. É grande como Fred Astaire, Robin Williams, Marlon Brando, Jack Nicholson.

Durante o documentário Jim Carrey conversa com a câmera, já com suas rugas e barba, relembrando do processo de gravação, e ele diz clara e calmamente: quem fez o filme foi Andy Kaufman. Ou ao menos a projeção que Jim faz da identidade de Andy. Ele tentou ser Andy Kaufman ao invés de Jim Carrey.

As gravações de Mundo de Andy se tornam um local onde o ego de Jim é constantemente interrompido para que ele projete Andy. E o Andy projetado bebe demais, fuma demais, briga demais. Invade o escritório de Steven Spielberg para reclamar de seus filmes; invade a mansão da Playboy e prega uma peça digna de uma Quinta Série – com maiúsculas, porque no Brasil a quinta série é uma instituição -; briga com lutador Jerry Lawler. Em muitos momentos é difícil saber o que era ficção nas filmagens trazidas para o documentário.

É uma força poderosa Jim/Andy em ação. E piora quando Jim/Andy interpreta Tony Clifton. Piora a ponto do diretor do filme, Milos Forman – também diretor de Um Estranho no Ninho e O povo contra Larry Flint – se chocar com Andy, em busca de Jim e falhar miseravelmente. Se contenta em dirigir Andy/Clifton, e pedir, com muita comiseração, que embora Andy/Clifton saiba o que é o melhor para o filme, que ele faça do jeito que pede.

Em outro momento Jim/Andy está no trailer de maquiagem quand Gerry Becker – que interpretava o pai de Andy no filme – invade o camarim e ambos discutem como pai e filho com tamanha intensidade que uma das maquiadoras chora dizendo se lembrar de seu próprio pai. É assustador. Tanto quanto imaginar que uma filha de Andy que havia sido deixada para adoção se encontra com Jim/Andy e ambos conversam como pai e filha.

A imersão que Carrey faz em si próprio em busca de Andy o fez experimentar viver fora de si por alguns dias e dessa forma, rever sua vida olhando de fora, como nos ensina Gerd Bornheim, filósofo brasileiro e também John Keating – personagem de Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos. Foi por volta desta época que ele percebe ter alcançado aquilo que buscou: fama, sucesso, dinheiro. Chegou a ser o ator mais bem pago de Hollywood. E percebeu que isso não lhe trazia felicidade.

É tocante ver Jim confessando que após o fim das filmagens se entristeceu por ter que voltar a ser apenas Jim, com seus problemas e angústias mal resolvidas. É desse choque entre desejo e personalidade que nossas vidas vão se comprimindo.

Jim precisou ser outro para perceber quem era e o que queria para si, e este registro joga luz não apenas sobre Andy Kaufman, Jim Carrey ou mesmos sobre a indústria do cinema.

Ela ilumina um pouquinho mais a nós mesmos e a nossa consciência de si.

Perfil do Autor

Rafael Alves de Oliveira
Rafael Alves de Oliveira

Professor de Filosofia, editor do Cinesofia e blogueiro do Huffington Post Brasil.


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