,


A saga do sertanejo na maior seca dos últimos 100 anos

Dona Benedita Silva, 63 anos, corta a carne seca na cozinha de sua acolhedora casa, na comunidade de Lajeiro Vermelho, no Sertão do Moxotó, município de Manari, interior de Pernambuco. Ela estava feliz, a seca enfim dava uma trégua e os filhos finalmente podiam plantar. No lado de fora da casa,  os animais de criação (algumas poucas ovelhas) que restaram estavam salvos e reproduzindo, o pior havia passado.

Foi a seca mais dura da minha vida. Sete anos foi muito tempo, o senhor não faz ideia do que seja isso. É muito sofrimento,

recordou enquanto preparava o almoço e me revelava sua luta.

O prato do dia, abóbora com charque, serviria um grupo de 12 homens que trabalhavam numa construção vizinha. Com a chegada da chuva, a fartura voltava a mesa. Um mutirão somava forças para erguer a nova casa da vizinha Terezinha, 51 anos, que após ter morador até mesmo debaixo de um “pé de pau” (árvore) com a família, vivia até aquele dia, 13 de novembro, em um casebre de Taipa (madeira e barro) há anos. Foi o melhor que a família conseguiu para viver. Porém, em semanas a história mudaria para melhor com a nova casa, construída com doações de voluntários de todo o Brasil.

Cheguei em Manari, município com pouco mais de 20 mil habitantes, no dia 26 de outubro com o objetivo de retratar a vida no Sertão Nordestino. Seguindo os piores Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil, deixei Curitiba em 24 de outubro, para  encontrar um município se reerguendo da grande seca com coragem e determinação.

Em 2016, a crise chegava ao ápice com o esgotamento total da barragem que abastecia o município e parte da região do Moxotó. Por sorte, o município vizinho, Inajá, é privilegiado pelo Aqüífero do Jatobá, e a água, embora escassa, não chegou a faltar.

Após as chuvas de 2017, a paisagem nem de longe lembrava a “secura” que por lá passou, embora as imagens fossem chocantes. Sete anos do que especialistas  trataram como sendo a pior seca dos últimos100 anos, castigaram a terra, a vegetação, as pessoas, os animais de maneira impetuosa.

Com prejuízo recorde de R$ 104 bilhões em todo o nordeste, e reservatórios de água operando com menos de 20% da capacidade em todo o sertão,  viver ganhou significado de bravura, numa região onde até mesmo comer tornou-se um desafio diário. A saca de 60kg  de feijão, por exemplo, chegou a custar até R$ 600.

Você ver o bichinho morrendo de sede, o pessoal começando a passar necessidade, sem dinheiro as vezes até para uma comida é doloroso meu filho. Só quem vive a seca, sabe o que é,

dizia Benedita colocando as panelas no fogo.

Viúva, mãe de sete filhos vivos, avó de mais de dez netos,  Benedita é uma espécie de matriarca no Lajeiro Vermelho e foi o porto seguro de seus vizinhos. Experiente em secas, me contava que a água das crianças era prioridade na comunidade.

Nunca deixamos faltar aos pequenos. No mais, era tudo na economia. Eu ainda tinha condições de comprar um caminhão de água no mês, (R$ 120,00 a Pipa com 16 mil litros) mas teve gente aqui que nem isso tinha,

lamentou.

A comunidade de Benedita é seca de água. Não há lençóis freático que permita a perfuração de poços. A água só chega de caminhão. Quando chove, os açudes se enchem, assegurando abundância  para a roça e para os animais. Porém, desde 2009 todos estavam secos.

Aposentada, Benedita tinha de fato um pouco mais de condições e passou a ajudar a todos na vizinhança. Com o rendimento, menos de R$ 1.000, por mês, assegurou não somente a sua sobrevivência, masde mais de  dez famílias que moram ao seu redor. Sua cisterna de 16 mil litros de água era um oásis na comunidade.

Não é muita água, mas dividia. Todos os dias alguém precisava, vinha em minha casa e levava um balde, dois. Só se vence a seca com união,

disse.

O sofrimento maior, segundo Benedita, veio nos anos finais da seca, quando os animais começaram a sucumbir. Embora fizesse todo o esforço para salvar cabras e ovelhas, algumas não prosperaram.

É muito triste você ver o bichinho sofrendo, morrendo. Alguns eu salvei, outros não pude. Teve uma ovelha que nasceu fraca, a mãe não tinha leite para dar, eu levei para minha casa, dava mamadeira a ao bichinho todos os dias. Daí ele ficou tão confiado que saía com a gente caminhar, mas sumia. Quando íamos ver, estava dormindo na minha cama. Veja só se pode,

contava entre uma mexida e outra nas panelas.

 

A comunidade superou a grave crise da falta de chuvas unida, sendo solidária. Contaram ainda com o apoio de uma pessoa em especial, Antônio Manoel Nascimento, que será personagem das próximas histórias que contarei aqui na Pense, é grátis.

Voltando a história de Benedita, o ano de 2017 tem sido abençoado como ela mesma falou. A sabedoria de vida adquirida no sertão lhe trouxe resiliência e fortaleceu sua fé.

Como vai ser para o próximo ano? Deus é quem sabe. A gente não controla nada. A gente vive, unido, supera,

me disse.

Estava emocionado com o relato daquela senhora e me esforçava para manter a compostura. Não queria interromper a sua narrativa. Enquanto cortava a abóbora, olhando fixamente para o movimento da lâmina, ela encerrou a história.

Você não vive bem sem ajudar ao próximo, em desunião. Se alguém chegar na minha casa com sede e eu tiver somente uma caneca de água, eu divido. Meu coração não suporta o sofrimento,

finalizou me emocionando ao ponto de correrem as lágrimas que a duras penas tentei represar.

Distante dali, 30 km, na Serra do Exú, povoado com pouco mais de 100 familias, na divisa dos estados de Pernambuco com Alagoas, fui visitar outro sertanejo para ouvir seus relatos e experiências da seca. Zé Bala, como se apresenta e quer ser chamado, é dono de um pequeno comércio, e profundo conhecedor da vida dos seus conterrâneos.

A estiagem longa quase fechou seu comércio, trouxe crise a região, mas não tirou o brilho do olhar dos sertanejos.

Você olhava tudo isso seco, era um queimado de sol só,

me contava enquanto apontava, do alto de um morro, o horizonte de mata verde e viva entre os municípios de Manari (PE) e Canapi (AL).

Zé me explicou que nas regiões privilegiadas pelo Aquifero do Jatobá, os poços asseguravam a irrigação do solo, o plantio da roça e a água aos animais. Já quem não tinha.

Teve que lutar muito. Muita gente foi embora, atrás de uma vida menos sofrida,

disse.

Bala morou por muitos anos em Santo André, na grade São Paulo. Viveu na favela, trabalhou de pedreiro, juntou dinheiro para voltar a sua terra com a família. Não esperava viver a maior seca da história recente do país, e disse ter lutado muito para não desistir.

Chegou-se um tempo em que eu estava quase me entregando. Minha esposa, minha família, me seguraram,

revelou.

O esforço valeu a pena. Hoje, vencido o longo período de seca, Zé Bala e a família começam uma nova história. No bar e restaurante que manteve aberto, sua esposa, Dora, faz sucesso com o prato mais apreciado da região, o Fidalgo (Tilápia no Sul e Sudeste) assado com salada e pirão.

A filha de Zé Bala, professora formada em pedagogia, foi promovida a vice diretora da escola municipal em que trabalha e os netos podem correr e brincar soltos num povoado que renasceu com a chegada das chuvas ao Sertão do Moxotó.

Mais abaixo, na planície de Manari, os filhos de dona Benedita também plantam. Feijão, feijão de corda, milho, enquanto ela cuida dos animais que tanto amo.

Por onde passei na região de Manari, vi o sertão verde do plantio da melancia, do feijão de corda, da macaxeira. Gente colhendo, arando, plantando. Com água, a vida próspera fácil por aqui. Trabalhar todos querem, afinal como eles mesmos me definiram, felicidade é:

ter saúde, viver bem com as pessoas e ter trabalho, roça para plantar.

Série de reportagens

A partir de hoje, durante o mês de janeiro, a Pense é Grátis trará uma série de reportagens sobre a “Seca do Século” no sertão. Um relato que parte da experiência do jornalista curitibano e criador de conteúdo da Pense, Pedro Rodrigues Neto, que percorre, desde outubro de 2017, o sertão pernambucano e piauiense, conhecendo gente e ouvindo histórias.

Perfil do Autor

Pedro Rodrigues Neto
Pedro Rodrigues Neto

Jornalista, escritor, especializado em gestão de crises e admirador da filosofia ocidental


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Loading…