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Teria sido melhor se Aécio tivesse vencido em 2014?

Lembro bem daquela noite em que foi definido o vencedor da eleição presidencial de 2014. Diferentemente de outras eleições, o resultado não saiu aos poucos, mas de uma só vez, lá pelas nove da noite. Dilma Rousseff vencia Aécio Neves por uma pequena margem de votos, por volta de 3,5 milhões, pouco mais de 3% de vantagem. Respirei aliviado: a melhor opção – ou a “menos ruim” – tinha vencido. Hoje, no final de 2017, fico pensando se um resultado diferente naquele 27 de outubro não teria sido melhor.

Sabemos hoje que Aécio carrega acusações de crimes bem piores do que os desvios explorados naquela eleição. São, ao todo, nove inquéritos no STF, incluindo crimes de corrupção passiva e obstrução à Justiça. O ainda presidente do PSDB teve sua cadeira no Senado salva pelo coleguismo dos senadores e ainda ostenta influência nos bastidores, mas sua vida eleitoral está acabada. Teríamos um criminoso chefiando o Executivo nacional caso a eleição de 2014 tivesse terminado de outra forma, mas não seria muito diferente da cleptocracia hoje comandada por Michel Temer.

Aécio faria um governo bem mais à direita, é possível argumentar contra a minha hipótese. É verdade, havia o medo de uma guinada neoliberal num novo governo tucano, com perdas para os mais pobres que tiveram significativas melhoras durante os mandatos petistas. Mas também é verdade que Dilma, depois da vitória, deixou de lado o que André Singer chamou de “ensaio desenvolvimentista” para adotar medidas muito parecidas com as que seu adversário tomaria. Ela procurou fazer a vontade do mercado ao nomear Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, mas não surtiu efeito. Seu segundo mandato já estava condenado.

Esse hipotético governo de Aécio Neves daria prioridade a essa vontade do mercado, e contaria com sua simpatia como contrapartida, o que provavelmente ajudaria a fazer da inevitável crise econômica um pouco mais branda. Também é provável que houvesse reformas trabalhista e previdenciária, porém elas seriam menos agudas e graves do que as que Temer faz agora. Temer não precisa responder a eleitores porque não foi eleito para a presidência, e justamente por isso se mantém mesmo com aprovação quase inexistente. Um presidente eleito precisaria responder minimamente a quem o elegeu, e as conquistas sociais dos anos anteriores seriam mantidas, se não intactas, pelo menos em nível razoável. A porrada que levamos, agora, é mais dura do que a perspectiva de uma vitória tucana em 2014.

Mas, principalmente, penso que as perspectivas hoje seriam mais positivas, especialmente para a esquerda e seu único representante com força eleitoral no Brasil, o PT. Dilma não teria sofrido impeachment e seu partido não teria passado pelo processo de desmoralização que levou toda a esquerda junto. Também teriam sido evitados episódios tristes como a votação na Câmara dos Deputados que aceitou o processo contra a petista. Parte da culpa da crise poderia ter sido colocada, mesmo que erroneamente, em Aécio. O PT ou algum candidato de centro-esquerda poderia usar, em 2018, um discurso contra as medidas direitistas adotadas pelo tucano. Isso tiraria a força de pré-candidatos como Geraldo Alckmin, João Doria e Jair Bolsonaro.

Se a crise econômica poderia estar menos grave no caso de vitória de Aécio, porque ele teria, como dito antes, a simpatia do mercado e a colaboração que Dilma não teve no Congresso, a crise política talvez fosse menos desesperadora também. A combinação de hecatombes como o impeachment, o vazamento de áudios de Temer e sua quase queda do poder em maio deste ano paralisou o país, que há tempos vive em clima de indefinição, apesar das medidas aprovadas a peso de ouro pelo atual presidente. O Brasil parece um paciente que consegue até se mover, mas não tem perspectiva real de cura a curto prazo e não sabe o que será de sua vida.

É claro que o “se” não entra em campo, como dizemos no futebol. Mas é interessante fazer um exercício hipotético que, é claro, pode não ser preciso justamente porque fica no campo das hipóteses. E a situação hoje poderia ser melhor (ou menos ruim) não porque o senador mineiro fosse adequado ao cargo de presidente – longe disso – mas porque as avaliações, os discursos e todo o jogo político estariam diferentes neste novembro de 2017. A centro-esquerda teria maiores chances de voltar ao poder e fazer, quem sabe, uma administração responsável com os gastos públicos e benéfica para os mais pobres, num clima menos beligerante e dividido que o que temos agora.

Perfil do Autor

Luiz Vendramin Andreassa
Luiz Vendramin Andreassa

Jornalista e pós-graduando em Ciência Política, adora entender o mundo e o que faz as coisas serem como são. Tem o sonho de que o conforto material e o acesso ao conhecimento deixem de ser privilégios.


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