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A misoginia nossa de cada dia nos dá hoje a pena de morte para vítimas de estupro

Reflexão sobre a criminalização do aborto para vítimas de estupro

Meu pintor predileto é Caravaggio.
Escultor? Ninguém empata Da Vinci.
Compositor clássico? Palestrina.
Morro de amor pelas letras de Chico Buarque.
Mas me comovem como nada as melodia de Tom Brasileiro Jobim.
Se tenho que apontar um músico contemporâneo, não penso em ninguém senão Zakk Wylde.
Porém minha banda favorita é Metallica…
Bukowski inspira-me profundamente quando escrevo.
E Freddie Mercury foi o maior vocalista da história da humanidade.

E o que todos estes têm em comum?
Ora, são homens.
No entanto, nem todos reproduzem o estereótipo do “macho”, do legionário barbudo e durão, destemido e gelado nos sentimentos.

Desta pequena relação (que não apenas poderia, como deveria ser feita por todo indivíduo masculino que deseje autocriticar sua responsabilidade no inferno que vivemos), podemos concluir facilmente que, ao contrário do que os discursos pós-modernos possam estar inconscientemente sugerindo, machismo e misoginia (embora filhos do mesmo demônio) não são exatamente a mesma coisa. E é sobre a misoginia que falaremos hoje.

O termo nasce da junção de dois elementos do grego, o “misein” (odiar, sentir repulsa, evitar) e “gynia” (relativo à mulher), e surge para conceitualizar um sentimento de aversão ao que é feminino (enquanto próprio da mulher).

Olhando friamente para esta definição possível, imediatamente nos sentimos avessos à ideia de sua existência na realidade, enquanto não há (ou jamais houve) um único indivíduo que não tenha nascido de uma mulher. Mas nem tudo é tão simples aplicado à realidade.

Se refletirmos sobre a natureza que nos corresponde, somos obrigados (ainda que a contragosto) a concordar com as convenções sociológicas de que, ainda que sejamos algo antes de tudo, somos produto de nosso meio.

Mesmo em tempos de pós-verdade e demonização da intelectualidade, com tentativas desesperadas de negar o óbvio utilizando postulados estúpidos e infundados de desígnios divinos e destinos preestabelecidos, até os que negam a influência dos ambientes (inclusive micro) na formação da massa oca do bebê humano são pegos em sua própria mentira quando apresentam teorias tais como a xenofobia, que baseia-se puramente no conjunto de fatores presentes a determinado lugar no tempo e espaço qualitativamente num sujeito.

Ora, como é possível que o meio não seja determinante na construção do ser se alguns meios o são? Pura incoerência.
Por estas e outras acredito não ser necessário esticar este assunto.

Sendo, portanto, produto de micro e macro ambientes, somos o resultado de processos que sequer sabemos como e porque iniciaram-se. E um deles, talvez hoje o mais determinante, é o Patriarcado.

Este, de difícil suposição da motivação, ensina-nos (hoje) veladamente que o homem é a Humanidade, embora esta seja inegavelmente composta por duas partes distintas e complementares: macho humano e fêmea humana.

Na “Ética a Nicômaco” e em “A Política”, Aristóteles, ao determinar a hierarquia que entrega plenitude às organizações sociais, mostra-nos que mesmo a genialidade não salva da bagagem ruim legada de um passado sombrio, quando determina que a mulher, a fêmea humana, deve estar abaixo dos escravos nas prioridades do senhor, do homem livre e de posses, já que não “produz riquezas”, apenas filhos.

E, para desespero, os vinte e quatro séculos de lá a cá não nos permitiram mudar em nada este pensamento enquanto sociedade (provavelmente porque, sendo país “cristão”, recebamos os mesmos valores na catequese desta ideologia como “verdade incontestável revelada pelo mesmo Deus”, o “autor” da Bíblia).

A proposta de proibição do procedimento de aborto em casos de estupro ou risco de morte para a mulher gestante, aprovada em Comissão Especial do Congresso Nacional neste 8 de Outubro, para surpresa, berra fundamentar-se na premissa da dignidade da vida humana e no inalienável e inviolável direito à vida. Mas a própria experiência os desmente, e nem precisaremos de muito esforço para concluir tal.

Somos um país que registra um estupro a cada onze minutos, estes vitimando, em 70% dos casos, crianças e adolescentes.
Somos, ainda, um país que registra 29 homicídios de crianças e adolescentes ao dia.
Somos, também, um país de proporções continentais onde mais de 6MI de crianças vivem em situação de extrema pobreza.
Isto apenas considerando a situação de crianças, apenas para comprovar como a vida humana fora de um útero não parece ser tão digna, tampouco direito inviolável.

E, se assim que saídas da proteção uterina, estas vidas já não têm valor, como podemos acreditar na humaníssima e boníssima intenção de proteger as que ainda estão nela?

E, se não é o desejo de proteger a digníssima vida humana intrauterina, qual seria a motivação para gastar tempo e dinheiro (dinheiro este que poderia entregar dignidade às vidas humanas antes mencionadas) deliberando sobre a proibição destes abortos especificamente?

Ora, sinto-me obrigado a apontar que, uma vez julgando intenções (o que os cristãos costumam chamar de “juízo temerário”, com caráter de “pecado”), posso estar enganado. Mas não acredito nisto. E por tal sigo discorrendo.

Sabemos que uma em cada cinco mulheres não atinge o orgasmo em suas relações sexuais. Inclusive há cadeias (ainda que puramente irracionais e difundidas boca a boca) que defendem que o orgasmo feminino sequer é uma possibilidade fisiológica.
Sabemos que grande parcela dos homens sentem-se violentados com a inserção de vibradores e brinquedos sexuais nas suas relações sexuais com suas parceiras.
Sabemos também que a masturbação feminina não é lá das realidades mais naturalizadas e bem aceitas, sendo inclusive um tabu de difícil dissolução ainda em nossos dias.

Ainda, é inegável que uma das principais motivações para o repúdio à descriminalização do aborto (muito longe de preservação da vida embrionária) é a manutenção da gestação como penalização pela “irresponsabilidade” de não assumir uma vida celibatária. Ditados populares como “ficasse com as pernas fechadas”, “na hora do ‘bem bom’ não pensou nisso”, “quem pariu Mateus que o embale” corroboram.

Olhar para isto nos move a deduzir que, apesar da globalização da informação, apesar da Primavera Feminina – experimentada por nós diariamente nos últimos anos -, a sexualidade feminina ainda é um mistério tratado como tenebroso, demonizado, como se a felicidade promovida pela saúde sexual feminina abrisse uma nova caixa de Pandora.

No entanto, não o é a sexualidade masculina, que inclusive é tratada como uma demanda urgente e incontrolável.

Estima-se que um em cada três brasileiros considere a mulher como principal responsável por seu próprio estupro.

Se juntarmos as peças deste quebra-cabeças, sabendo que muitos consideram que “se a mulher se desse ao respeito”, “se estivesse em casa”, “se fosse recatada” não seria vítima de um estupro; sabendo que muitos consideram que o impulso sexual masculino é irrefreável; supondo que, para estes muitos, a gravidez é uma penalização pela prática do sexo, só cabe deduzir que proibir o aborto em situação de estupro nada mais é do que a dupla e monstruosa culpabilização da vítima, buscando que, além de estar obrigada a carregar por toda sua vida o trauma gerado pela violação sumária e bestial de sua liberdade, carregue uma pena material dentro de si/consigo, que alterará sua fisiologia e esmagará completamente sua dignidade (e o mais assustador: aos berros de promoção da dignidade humana).

Para concluir esta presunção motivacional de algo tão assombroso, tão apavorante, proponho o questionamento:

Qual seria a solução para alterarmos em nós esta situação, esta soma de fatos?
Como ignorar que os abortos seguirão acontecendo, seja ou não crime, mas que resultarão na morte daquelas que não poderão pagar por um procedimento seguro – que deveria ser encargo do Estado -?
Como negar que falamos sobre a legalização da pena de morte para vítimas de estupro? Especialmente as mulheres mais pobres?
E como mudar-nos para mudar, para parar de andar para trás no processo civilizacional, que está nos bestializando neste novo medievo?
Empatia?

Mas como posso sentir empatia por alguém com quem não me identifico?
Como posso “sofrer junto”, intelectual e emocionalmente com alguém que, ainda que não queira, entendo inferior a mim?
Não é a misoginia que motiva não só o estupro, mas a culpabilização da vítima, bem como o desejo de punir, vingando-se?

É engraçado que glorifiquemos sistematicamente nossa masculinidade pela suposta coragem e valentia mas, ao encararmos uma situação de injustiça real, sejamos tão parvos e covardes… Eu me sinto um completo covarde.

E você?

E o que faremos com isto?

Perfil do Autor

Mario Feitosa
Mario Feitosa
Um baixista, um baixo, puta baixo, um poeta, escritor, compositor, aristotélico, o cara da TI, factótum, "barbieri di Siviglia", ex-marido, ex-vocalista, ex-religioso, enfim, um ex-quisito. Me decifra ou te devoro, tal Caetano.

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