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O totem da ignorância

Enfim, chegamos aos tempos em que podemos dizer abertamente o que pensamos e acreditamos, sem a consciência de que nossos pensamentos podem se “monstrificar” na sociedade quando manifestos. A máxima de Crowley “faz o que tu queres, há de ser tudo da lei” se condensou em nosso imaginário social e está tomando forma, corpo e habitando entre nós.

Assim como Nietzsche no fim do século XIX afirmou que “aquele que luta com monstros, deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro”, podemos cogitar esta ideia em nosso meio social, uma vez que toda a pulsão de animalidade monstruosa tem emergido em nosso ente coletivo. Vemos e constatamos isto facilmente ao ler comentários em posts polêmicos nas redes sociais, na relativização de conceitos – até então postos como pedras de fundamento na organização social, na ascensão da hipocrisia e cinismo, bem como na emancipação da ignorância.

Sim, a ignorância está sendo emancipada entre nós. O “empoderamento” que se tem feito dela promove a “burrificação” generalizada de maneira assustadora e alarmante. Ontem pensamos, lemos e estudamos para expor ou afirmar determinada opinião ou conceito. Hoje, acreditamos, imaginamos e concluímos que, independente de ser verossímil ou certo, é passível destilar toda essa ignorância empoderada. Erguemos um totem à Ignorância e a veneramos como fanáticos, nesta sanha de pós-verdade, falácias e sofismas.

Citando novamente Nietzsche, já entendendo que estamos mesmo diante de um abismo, “quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. Então, nosso abismo pode ser conhecido como a ladeira que está disposta diante da sociedade brasileira.

Há uma ladeira perante a sociedade brasileira – um precipício para o passado. Uma ladeira construída pela arquitetura da corrupção – engenharia extremamente elitizada – bem íngreme e escorregadia. Há uma carroça descendo esta ladeira. Sua velocidade aumenta cada vez mais conforme nos esgueiramos para olhá-la, porém não nos movemos para impedi-la de causar uma tragédia maior. Eis aí nossa carroça, nossa vergonha nacional, nosso ímpeto de brasilianidade que nos eleva a categoria de vira-lata!

Assim, ficamos analisando e observando essa ladeira, aquela carroça “desgovernada”- expressão de toda nossa burrice emancipada – engalfinhados em nossas discordâncias opinativas, que por vezes “beira” a uma psicopatia intratável, enquanto os “outros” – os arquitetos dessa ladeira – manipulam e abusam de nossa condição imbecilizada exatamente pela “representação” daquele totem que erguemos como objeto de veneração.

É certo então, parafraseando o que disse o mestre judeu, de que o caminho da verdade e do conhecimento é estreito e difícil, mas o caminho que leva ao precipício é fácil, largo e espaçoso. Como bem ensinado pelo Cristo, poucos são os que decidem trilhar por este caminho estreito e difícil.

Até breve.

Referências:

  • Moore, John S. Aleister Crowley as Guru in Chaos International, Issue No. 17.
  • Nietzsche, Friedrich. Para Além do Bem e do Mal.

Perfil do Autor

Victor Faria
Victor Faria
Estudante "do" Direito, ex-militar, amante dos livros, um sutil observador da vida.

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