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Como lidar com os “deploráveis”: o grande desafio da esquerda e da democracia

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Durante a campanha para a presidência dos EUA, no ano passado, a democrata Hillary Clinton deu uma declaração um tanto forte para alguém que queria se opor à truculência do seu adversário. “Você sabe, para ser grossamente generalista, você poderia por metade dos apoiadores do Trump naquilo que eu chamo de cesta de deploráveis. Os racistas, os sexistas, os homofóbicos, os xenofóbicos, os islamofóbicos. Infelizmente existem pessoas assim. Ele os levantou”. Analisando depois da vitória de Donald Trump, não parece ter sido algo inteligente dizer que tanta gente, certa de 25% do eleitorado, é deplorável.

O Democracy Index, avaliação da democracia na maior parte dos países do mundo feito pela revista The Economist há décadas, rebaixou a classificação dos Estados Unidos. Seu sistema político caiu de “democracia plena” para “falha” – foi a primeira vez que isso aconteceu. O relatório escrito leva o sugestivo nome “A vingança dos deploráveis”. Segundo ele, o rebaixamento da nota americana, de 8,05 para 7,98, se deu justamente por conta da frustração dessa parcela da população com a elite política americana (inclua nessa cesta os políticos, os partidos, as instituições, as empresas financiadoras, a imprensa, etc.). Descrentes na capacidade dos atores tradicionais melhorarem suas vidas, os deploráveis apostaram no populismo troglodita de Donald Trump – e venceram.

Mas quem são esses deploráveis? Segundo a The Economist, principalmente homens brancos que perderam seus empregos ou pioraram sensivelmente suas condições de vida depois da crise econômica. Especialmente aqueles que vivem no interior e/ou fora dos grandes centros urbanos. Pessoas que não vão ser pegas pelo discurso da esquerda progressista sobre reconhecimento de privilégios. Indivíduos americanos, britânicos, franceses e alemães frustrados que se tornam cada vez mais individualistas e suscetíveis a lideranças autoritárias e conservadoras, que ganharam poder nesses países em 2016.

Essa descrição lembra alguém que você conhece? Pois é, a situação no Brasil é diferente, mas também temos nossos deploráveis. Eles estão nas páginas pró-Bolsonaro, fazem comentários raivosos nas redes sociais e enxergam esquerdistas como pragas. Mas também estão em nossas famílias, nos nossos trabalhos, em nossas vizinhanças. São cidadãos como nós, que buscam interpretar o mundo e encontrar vilões assim como todos fazemos. Na maior parte das vezes, sua revolta é compreensível. Dá pra entender sua posição: justamente revoltados com a corrupção na política brasileira e com os efeitos da crise econômica, buscam as explicações que estão ao seu alcance.

O grande desafio da democracia é incluir essas pessoas no jogo. Mostrar a elas que a situação é mais complexa que parece e que não há soluções fáceis. Passar o sentimento de que sua voz é ouvida. É difícil, eu sei. Conversar com fãs do Bolsonaro quase nunca vai ser algo agradável, porque poucos deles parecem abertos ao diálogo. Mas é aí que está a chave para a política saudável, especialmente aquela de esquerda. Hillary Clinton mostrou, com seu erro, que não se pode deixar esses descontentes de lado, colocando-se como superior a eles. Se as forças democráticas não os pescarem, as autoritárias pescarão.

Lembramos do exemplo do MBL. Um movimento que se diz liberal adota sem pudor pautas conservadoras para conquistar os revoltados online. E está dando certo, pois esses “deploráveis” estão suscetíveis a esse tipo de abordagem. Quando nada dá certo, é mais fácil culpar a depravação moral e a “modernidade” pelos problemas do país. Quando as coisas vão mal por culpa dos erros de uma presidente petista, não é tarefa difícil fazer muita gente esquecer as conquistas que o próprio PT proporcionou ao Brasil.

Um artigo do escritor Andrew Sullivan se popularizou no ano passado ao falar sobre os efeitos colaterais da democracia e como ela poderia levar um tirano ao poder. O tirano ao qual ele se referia era, é claro, Donald Trump. E um dos argumentos de Sullivan fala justamente dos rejeitados pela esquerda e pela elite política que se vingaram ao eleger alguém que poucos acreditavam poderia se tornar presidente do país mais poderoso do planeta. A The Economist oferece uma solução contrária: ao invés de menos, é preciso mais democracia. Mais diálogo. Mais abertura. Mais representatividade. Só assim, pode-se dar a todos os cidadãos uma mínima sensação de inclusão. Para isso, é preciso tolerar e dialogar com deploráveis e com “bolsominions”. É fácil? Claro que não. Mas qual é a alternativa?

Perfil do Autor

Luiz Vendramin Andreassa
Luiz Vendramin Andreassa
Jornalista e pós-graduando em Ciência Política, adora entender o mundo e o que faz as coisas serem como são. Tem o sonho de que o conforto material e o acesso ao conhecimento deixem de ser privilégios.

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