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Stranger Things 2

Todo filme/série/livro e similares contam uma história, e Stranger Things 2 conta uma história de amor, não de terror nem de suspense. Vamos entender como e por quê.

Um ano se passa após derrotarem o Demogorgon e a vida dos quatro garotos – Mike Wheeler (Finn Wolfhard), Will Byers (Noah Schnapp), Dustin Henderson (Gaten Matarazzo) e Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin) – da cidade de Hawkins, Indiana volta a normalidade dentro do possível, embora Will ainda sofra os efeitos do tempo em que passou preso no Mundo Invertido e Mike tente se comunicar sem sucesso com Onze (Millie Bobby Brown) através do walkie talkie.

Sobre Will, vemos com mais cuidado sobre sua relação familiar, algo nos apresentado através das memórias de sua mãe, Joyce Byers (Winona Ryder), e seu irmão, Jonathan Byers (Charlie Heaton). E é na casa da família Byers que o núcleo da série se desenvolve mais uma vez. O romance vivido por Joyce e Bob Newby (Sean Astin) – um nerd crescido – e nos serve como contraponto a experiência terrível vivida por eles um ano atrás.

Enquanto os Byers vivem como uma família – com Bob ensinando coisas simples como mexer em uma câmera ou se fantasiando de vampiro para o Halloween – Onze vive isolada em uma cabana sob a tutela do delegado Jim Hopper (David Harbour), emulando uma relação de pai e filha que se intensifica a medida que ambos cometem erros clássicos um com o outro: Hopper erra ao superproteger Onze, e ela por se rebelar e fugir da cabana. Aliás, esta fuga é também o motor de crescimento dela.

Durante a primeira temporada Onze é pouco mais que um bebê crescido, com sentimentos e motivações bastante simplificados. Agora, após as experiências vividas e os laços criados, ela experimenta frustração, ansiedade, remorso, opinião. Durante o sétimo episódio, quando Onze viaja em busca de sua irmã Kali (Linnea Bhertelsen), ela é colocada diante de alguns dilemas morais e precisa decidir sobre como agir diante deles sem a ajuda de seus amigos para lhe ajudar.

A chegada de novos personagens a Hawkins, Max (Sadie Sink) e Billy (Dacre Montgomery) é acompanhada de alguns eventos no campo que, após investigados, revelam-se como a tentativa dos habitantes do Mundo Invertido em colonizarem nosso mundo, pois após Onze regressar, um portal foi aberto entre nossas realidades permitindo o livre acesso entre ambos os mundos.

É a partir deste motor que a história volta a girar e os eventos a se desenvolverem.

Will, primeiro acometido por visões do Mundo Invertido, é então possuído por um Monstro de Sombras, e agora divide o corpo – e suas dores e conhecimento – com a criatura. Embora não fique claro, parece que Will é escolhido como hospedeiro pois já trazia dentro de si um deles: ainda na primeira temporada o vemos cuspindo algo na pia. Ficamos sabendo agora que era uma criatura daquele mundo semelhante ao Demogorgon, porém, em quatro patas – um demodog.

Enquanto o estado de Will vai piorando, o triângulo amoroso Nancy Wheeler(Natalia Dyer) Jonathan Byers e Steve Harrington (Joe Keery) atravessa também seu próprio arco pessoal, motivado pelo modo como lidam com a morte de Bárbara, ainda na primeira temporada. Após o profundo crescimento de Steve, namorado de Nancy e aproximação entre ela e Jonathan, cria-se uma tensão sexual velada que é resolvida através de um vetor moral. Sua paixão por Jonathan diminui a medida que ele tem dificuldades em revelar o modo como Bárbara realmente morreu e sua paixão por Jonathan cresce a medida que ele a incentiva a isto.

Mas, creio, é com Bob Newby que conseguimos entender melhor como a segunda temporada é uma história de amor.

Após Will desenhar uma espécie de mapa bastante complexo que se espalha por toda a casa da família Byers – repetindo um evento da primeira temporada: a casa bagunçada – Bob é chamado por Joyce para tentar decifrar aqueles desenhos todos e assim ajudar a resolver o sofrimento de seu filho. É Bob, um antigo nerd, que sofria com bullying, quem compreende o mapa e então as histórias que corriam em paralelo começam a se encontrar e se ajeitar através do amor. É bonito como Bob aceita a família Byers e por ela é aceita, mesmo com todas as estranhezas que os cercam. Bob pouco ou nada se importa com isto.

Percebemos então o quanto a relação de Bob e Joyce era forte quando ele supera seus traumas para morrer em seguida. Vemos Nancy e Jonathan tendo seu primeiro beijo. Hopper e Onze crescendo para se tornarem pai e filha. Os quatro amigos aceitando (aos poucos) a entrada de Max em seu grupo – porque amor é coração de mãe certo? – E mais importante, vamos percebendo que os antagonistas são aqueles que não estão conectados com o amor de nenhuma forma.

As criaturas do Mundo Invertido desconhecem este conceito, embora seja tocante quando d’Artagnan – um demodog – aprende a amar Dustin momentos antes de ser morto; e Billy, irmão de Max, típico valentão do colégio: alguém que em casa, recebe socos do pai ao invés de abraços, e por sua vez descarrega essa frustração e vergonha em sua irmã e quem mais estiver próximo.

Aliás, a metáfora da expulsão do Monstro de Sombras do corpo de Will também nos indica isso: é o calor que o faz ir embora, não sem antes se debater. Porque sabemos que as vezes deixar a raiva e o medo saírem para que o amor entre, pode ser doloroso.

Ao fim Onze, agora preparada para ser filha, amiga e namorada após sua jornada de crescimento, resolve o problema do portal e passa também pelo ritual bastante comum entre os adolescentes norte americanos, de ir ao baile escolar, dançar e beijar junto com velhos e novos amigos.

Aquele suspiro aliviado e apaixonado que sabemos, tem prazo de validade.

PS. Stranger Things aposta pesado em uma trilha sonora nostálgica que funciona bastante. Apela para aquela nossa sensação de que o passado parecia mais simples e divertido, e talvez fosse mesmo. De qualquer modo, vale a pena relembrar os anos oitenta através de The Clash.

 

Perfil do Autor

Rafael Alves de Oliveira
Rafael Alves de Oliveira
Professor de Filosofia, editor do Cinesofia e blogueiro do Huffington Post Brasil.

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