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Em tempos de desilusão, é preciso acreditar na política e rejeitar o autoritarismo

O Brasil tem vivido um ritmo frenético (e provavelmente inédito) de acontecimentos políticos e criminais nos últimos meses. A impressão é de que, a cada dia, um novo investigado revelará mais sujeira por meio de delações, algum político será denunciado e alguém ligado ao presidente será preso ou flagrado cometendo atos corruptos. É um estado de absurdo com o qual o brasileiro tem se acostumado.

E, até por isso, se torna compreensível que a maioria da população sinta repulsa pela política brasileira. Não é de hoje a impressão de que o Brasil tem em sua classe política sua pior inimiga. A corrupção, o patrimonialismo e a ineficiência parecem ser características intrínsecas do agir de nossos líderes e representantes, mesmo quando eles fazem algo de positivo para a sociedade.

É um exercício difícil, mas é preciso deixar de lado as desilusões antes de querer culpar a política pelo que tem acontecido em nossas terras. A verdade é que a política, como prática de negociação para a vida em sociedade, é muito mais do que a infinidade de crimes que vemos nos noticiários. Sem ela, não teríamos avançado como humanidade e as coisas poderiam ser muito pior. Aliás, é praticamente impossível imaginar nosso mundo sem a política, pois, como dizia Aristóteles, somos “animais políticos”, com uma capacidade de relacionar-se socialmente que nenhuma outra espécie tem.

Por ser tão intrínseca à vida em sociedade, a política não pode ser condenada. Fora dela, não existem opções viáveis. A democracia, com suas regras imperfeitas e seus partidos cheios de contradições, é o melhor sistema que já inventamos. Quem quer algo fora disso, precisa apontar uma solução. E essa solução não pode acontecer pela via do autoritarismo, como pregam os raivosos das redes sociais e políticos que se aproveitam da revolta da população.

Na semana em que um general aventou com a possibilidade de intervenção militar caso o Judiciário não resolva aja contar a corrupção, é preciso lembrar que o autoritarismo não é mais a resposta para as questões do mundo moderno. Especialmente no Brasil, onde a ditadura militar deixou como herança um país (ainda mais) desigual e um país (ainda mais) desacostumado à cidadania e à democracia.

A humanidade evolui conforme a liberdade de escolha e de discurso é cada vez mais respeitada. Não existem respostas fáceis para problemas complexos e antigos. O autoritarismo e a negação da política falham em respeitar esses dois ensinamentos que a história nos trouxe. Esqueçamos a enxurrada de escândalos para nos lembrar que a política é mais do que os representantes que não nos representam. Ela é a única saída para tirar o Brasil do buraco em que se meteu.

Perfil do Autor

Luiz Vendramin Andreassa
Luiz Vendramin Andreassa

Jornalista e pós-graduando em Ciência Política, adora entender o mundo e o que faz as coisas serem como são. Tem o sonho de que o conforto material e o acesso ao conhecimento deixem de ser privilégios.


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