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Homofobia em nome de Deus

Quando falamos que o Estado Fundamentalista Cristão está destruindo o Brasil, criando uma ditadura, muitos falam que é exagero. Mas eles não se cansam de inventar novas formas de praticar Homofobia! Eu sei que alguns leitores vão dizer que estamos de mimimi, ou mesmo fazendo propaganda gayzista. Acontece que quem é minoria precisa realmente ser defendido. Não a maioria dominante que não sofre nenhum tipo de opressão. Mas vamos aos fatos.

Algumas estatísticas dizem que um homossexual é morto a cada 28 horas no Brasil, vítima de homofobia1. Isso quer dizer que temos 785%2 casos a mais de crimes contra homossexuais do que os Estados Unidos, onde aconteceu um massacre esta semana. Os Estados brasileiros com maior índice de crimes contra homossexuais estão no Nordeste, onde um gay tem 80% mais chance de ser agredido que no Sudeste3, e onde, coincidentemente, percebe-se uma explosão de igrejas protestantes fundamentalistas.

Claude Lévi-Strauss, já dizia que “O leque das culturas humanas é tão vasto, tão variado (e de fácil manipulação) que, sem dificuldades, encontramos argumentos que sustentam toda e qualquer hipótese”4. E isso é perceptível no discurso de ódio presente tanto na fala de líderes cristãos como de muçulmanos. Para estes fundamentalistas, os gays são o maior problema da humanidade. Crimes, Estupros, Roubos, Corrupção? Ah, isso é fichinha! O problema são os gays!

Mas vamos aos fatos, essa semana um Juiz de Brasília concedeu uma liminar sobre um processo de 20095, movido por alguns fanáticos religiosos que acham que têm o direito de torturar, digo, curar gays, mesmo não havendo nenhuma evidência científica de que isso é possível no mundo inteiro.

Apesar de não suspender a resolução 01/1999 do CFP, o Juiz determina que “o Conselho Federal não a interprete de modo a impedir psicólogos de promoverem estudos ou atendimento profissional de forma reservada, pertinente à (re) orientação sexual, garantindo-lhes, assim, a plena liberdade científica acerca da matéria, sem qualquer censura ou necessidade de licença prévia por parte do C.F.P., em razão do disposto no art. 5º. inciso IX, da Constituição de 1988”.

Sim, ele citou a Constituição para justificar tratamentos sem base científica, e com viés religioso forte. Cabe ressaltar que a resolução não proíbe psicólogos de atenderem gays. Ela proíbe os profissionais de tratarem a homossexualidade como doença, propondo terapias sem fundamentação científica, ou aumentando a angústia e sofrimento de homossexuais.

A psicóloga que entrou com a ação foi punida com Censura pelo Conselho de Psicologia em 2009, por anunciar terapias de “cura gay”5. Acontece que a mesma não apresentou nenhuma prova de que suas “terapias” funcionam. Na prática a justiça brasileira, voltou aos tempos de Inquisição, onde a igreja definia o que eles deveriam fazer.

A decisão foi suficiente para que muitos líderes religiosos e cristãos fanáticos pusessem suas mangas de fora, destilando todo seu ódio e preconceito contra os gays. Muitos estão reacendendo o discurso de gente como o famoso defensor de torturadores, Bolsonaro. Ele, apesar de se declarar cristão, não é tão ligado à religião, o que não o impediu de ser homofóbico, dizendo que filho gay é falta de surra e que preferia o filho morto em um acidente, do que homossexual. São esses discursos de ódio, baseados ou não na bíblia, que “legitimam” a homofobia nossa de cada dia.

Sinceramente, é difícil de entender a obsessão de alguns líderes religiosos pelo sexo de pessoas que sequer são seus fiéis. O pior é que disseminam essa obsessão para seus seguidores, pegando trechos da bíblia e se esquecendo de outros. A bíblia proíbe comer bacon ou frutos do mar, por exemplo, mas nunca vi protestos contra açougues que vendem porco ou camarões! Nunca vi nenhum religioso protestando contra mulheres pastoras, mesmo com Paulo tendo dito que elas deviam ficar caladas na igreja.

O discurso de ódio é tão fundamentado que criam termos até então inexistentes6. Com ajuda de pseudopsicólogas, criaram a famosa ideologia de gênero para justificar sua homofobia (e vender livros para fiéis manipulados, afinal, dinheiro nunca é demais!). Termo este que não existe em lugar nenhum a não ser no discurso vazio destes “homens e mulheres de Deus”. De acordo com esses doentes, existe uma aliança global para transformar toda criança em gay.

Seria cômico se não fosse trágico. A ciência já provou há tempos que não há como transformar hetero em homo ou o contrário. O próprio Freud, em 1905, já dizia: “a homossexualidade não é algo a ser tratado nos tribunais. (…) Eu tenho a firme convicção que os homossexuais não devem ser tratados como doentes, pois uma tal orientação não é uma doença. Isto nos obrigaria a qualificar como doentes um grande número de pensadores que admiramos justamente em razão de sua saúde mental (…). Os homossexuais não são pessoas doentes”. Mais tarde em 1935, ele reafirmou isso à mãe de um homossexual: “A homossexualidade não é, certamente, nenhuma vantagem, mas não é nada de que se tenha de envergonhar; nenhum vício, nenhuma degradação, não pode ser classificada como doença; nós a consideramos como uma variação da função sexual”.7

Como nem a medicina e nem a psicologia iriam ajudar os fanáticos nesta perseguição contra os gays. Surgiram os curandeiros espirituais, se intitulando terapeutas. Um dos mais famosos eram William Masters e sua esposa Virginia Johnson que diziam ter curado mais de 70% dos casos que chegaram em seus consultórios, mas nunca provaram uma cura sequer8. Em artigo publicado no Scientific American, Thomas Maier entrevistou Lynn Strenkofsky, secretária do casal e ela disse nunca ter visto nenhum caso de conversão que tivesse dado certo.9

Em 2014, o médico Dr. Christian Jessen, passou por três tratamentos de “cura gay” indicados por líderes religiosos. Obviamente, nenhum dos três curou a homossexualidade do Dr. Christian.10 E o mais assustador, é que em um dos casos, o pastor se dizia médico, e não possuía registro. Esses processos terapêuticos, baseados na fé são comuns no meio protestante americano, e frequentemente são desmentidos.

John Smid, um pastor que defendeu a cura gay por muitos anos, em 2014 se revelou homossexual. Até 2007, quando finalmente aceitou a própria homossexualidade, Smid submetia homossexuais à reabilitação, isolando totalmente o “paciente” de seu “vício”, num processo de cura espiritual doentio e que, como ele mesmo reconheceu, só trouxe sofrimento à suas vítimas. No Brasil temos o caso do ex-pastor Sergio Viula que fundou um movimento para propagar a cura gay, e que depois de 14 anos casado, percebeu que não era possível se curar, e resolveu “sair do armário”, reconhecendo que seu movimento, criado em 1997 nunca transformou nenhum gay em hetero! Ele dizia que era uma zebra pintada de branco, e um de seus maiores arrependimentos foi acreditar que podia ser curado.11

Mas a ciência não é o suficiente para a horda de Homofóbicos, que usam Deus como desculpa para vomitar preconceito e que agora criaram até o crime de Cristofobia, onde os pobres cristãos perseguidos e assassinados todos os dias por causa da sua fé, precisam ser protegidos destes gays malvados que querem a todo custo transformar a Terra em um planeta cor de rosa, cheio de unicórnios e com a Madonna como presidente.

Talvez estes cristãos exemplares precisassem de umas aulas com Papa Francisco, que mesmo preso às doutrinas católicas, nos ensina que é possível ser tolerante. Ele diz que “A pessoa homossexual “deve ser respeitada em sua dignidade e acolhida com respeito, com o objetivo de evitar ‘qualquer marca de injusta discriminação’ e, particularmente, toda forma de agressão e violência”.12 Alguns pastores ainda não aprenderam que gays pagam dízimo, também. E olha que estudos mostram que 16% da população é homossexual, é um número enorme de potenciais dizimistas.

Apesar de ressaltar que o matrimônio cristão “se realiza plenamente entre um homem e uma mulher”, Jorge Mario Bergoglio se abre para os casamentos civis e à convivência, quando não são motivadas “para prejudicar ou para resistir à união sacramental, mas por situações culturais”. “Nestas situações, poderão ser valorizados aqueles sinais de amor que, de qualquer maneira, refletem, o amor de Deus”.12 E é isso que todo gay quer, casamento civil. Nenhum gay quer casar na igreja, sobretudo as que os perseguem com tanto fervor.

O resultado dessa intolerância e perseguição sem limites, é o sofrimento. Milhares de jovens gays se matam todos os anos por conta da pressão sofrida de familiares, amigos e da igreja. Quem os deveria acolher e amar, acima de qualquer maneira, são os primeiros a lhes atirar pedras, mesmo Jesus tendo dito que para atirar pedras a pessoa não deveria ter nenhum pecado.

Um dos casos mais emblemáticos neste sentido é o de Bobby Griffith, que morava em uma pequena cidade da Califórnia. O jovem, de 20 anos, se matou em 1983, depois de sofrer pressão de seus pais fanáticos religiosos. A história de Mary Griffith, seu fanatismo religioso e a morte do filho virou livro e um filme estrelado por Sigourney Weaver, vencedor de vários prêmios.13 O filme, inclusive está disponível na íntegra no youtube, e você precisa assisti-lo!

Uma das passagens mais emblemáticas da história de Mary Griffith, foi seu discurso numa reunião do Conselho do condado de sua cidade, poucos meses depois da morte de seu filho. Ao tomar o microfone em uma audiência pública sobre a criação de um dia para celebrar a liberdade gay ela disse: “Homossexualidade é um pecado. Homossexuais estão condenados a passar a eternidade no inferno. Se quisessem mudar, poderiam ser curados de seus hábitos malignos. Se desviassem da tentação, poderiam ser normais de novo. Se eles ao menos tentassem e tentassem de novo em caso de falha. Isso foi o que eu disse ao meu filho, Bobby, quando descobri que ele era gay”.

Quando alguns fanáticos estavam prestes a aplaudi-la, ela continuou: “Quando ele me disse que era homossexual, meu mundo caiu. Eu fiz tudo que pude para curá-lo de sua doença. Há oito meses, meu filho pulou de uma ponte e se matou. Eu me arrependo amargamente de minha falta de conhecimento sobre gays e lésbicas. Percebo que tudo o que me ensinaram e disseram era odioso e desumano. Se eu tivesse investigado além do que me disseram, se eu tivesse simplesmente ouvido meu filho quando ele abriu o coração para mim… eu não estaria aqui hoje, com vocês, plenamente arrependida”.

Em lágrimas ela disse: “Eu acredito que Deus foi presenteado com o espírito gentil e amável do Bobby. Perante Deus, gentileza e amor é tudo. Eu não sabia que, cada vez que eu repetia condenação eterna aos gays… cada vez que eu me referia ao Bobby como doente e pervertido e perigoso às nossas crianças… sua autoestima e seu valor próprio estavam sendo destruídos. E finalmente seu espírito se quebrou além de qualquer conserto. Não era desejo de Deus que o Bobby debruçasse sobre o corrimão de um viaduto e pulasse diretamente no caminho de um caminhão de dezoito rodas que o matou instantaneamente. A morte do Bobby foi resultado direto da ignorância e do medo de seus pais quanto à palavra “gay”.

Por fim, em prantos ela finalizou: “Ele queria ser escritor. Suas esperanças e seus sonhos não deveriam ser tomados dele, mas se foram. Há crianças como Bobby presentes nas suas reuniões. Sem que vocês saibam, elas estarão ouvindo enquanto vocês ecoam ‘amém’. E isso logo silenciará as preces delas. Suas preces para Deus por entendimento e aceitação e pelo amor de vocês. Mas o seu ódio e medo e ignorância da palavra ‘gay’ silenciarão essas preces. Então… Antes de ecoar ‘Amém’ na sua casa e no lugar de adoração, pensem. Pensem e lembrem-se. Uma criança está ouvindo”.

Como bem lembrou o, já citado, Papa Francisco, não podemos julgar ninguém, pois Jesus disse: “Não julgueis para não serdes julgados”. Precisamos parar de usar a bíblia para justificar nosso preconceito doentio e descabido. Não temos o direito de decidir, ou mesmo “aprovar” ou não o que o outro faz em sua vida íntima, principalmente se outro sequer for de minha religião. Parece que estamos vivendo um dejavú da idade média e suas inquisições e cruzadas. Ainda acredito no amor. Acredito que um dia superaremos esses dias negros em que se mata em nome de Cristo ou de Alá. Homofobia é doença, homossexualidade não.

REFERÊNCIAS
1 – https://goo.gl/ub8n6w
2 – https://goo.gl/Qyfa5j
3 – https://goo.gl/nbLw1t
4 – https://goo.gl/zUnVLG
5 – https://goo.gl/VkUDDn
6 – https://goo.gl/CrMahK
7 – https://goo.gl/MRa5s7
8 – https://goo.gl/1ii323
9 – https://goo.gl/UM2RoH
10 – https://goo.gl/5Dq9Kb
11 – https://goo.gl/S7SyCY
12 – https://goo.gl/yNrzMM
13 – https://goo.gl/EDiHEq

 

Perfil do Autor

Bruno Rodrigues Ferreira
Bruno Rodrigues Ferreira

Psicólogo, Jornalista, palestrante e goiano. Especialista em Tecnologia e Educação, Especialista em Gestão de Programas IST/AIDS e Especialista em Gestão em Saúde. Fala sério por aqui, e trivialidades no twitter @ferreirarbruno.


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