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Não há o que ponderar: 140 tiros para matar dez bandidos é barbárie

Imagem ilustrativa

É bastante compreensível que, no Brasil, as pessoas tenham muita raiva de bandido. Por aqui, mata-se quase 60 mil pessoas por ano – mais do que a guerra mata em outros países. Se não é a vida, perde-se bens materiais: 8% dos brasileiros disseram ter sido assaltados nos últimos 12 meses. Famílias perdem pessoas queridas e trabalhadores têm seus bens tomados depois de trabalharem muito para obtê-los – o próprio autor deste texto foi assaltado há três semanas e teve seu celular roubado. Mas essa situação não pode ser desculpa para a barbárie.

Barbárie tem como sinônimos crueldade, bestialidade, desumanidade. Não existe palavra melhor para definir o que aconteceu na ação da Polícia Civil que matou dez suspeitos de cometerem roubos, na última terça-feira, em São Paulo. Foram 140 tiros nos indivíduos, sendo que um deles levou nada menos que 33 balas no corpo. Nenhum policial morreu. Estes não são números de um confronto: são números de execução. A perícia pode até afirmar o contrário, mas tudo indica que os suspeitos foram sumariamente executados, provavelmente sem chance de defesa.

Esta é uma prática comum na polícia paulista, especialmente a militar, como demonstrou o jornalista Caco Barcelos no livro “Rota 66: a história da polícia que mata”. Quando acontecem baixas somente de um lado e a quantidade de tiros é tão alta, é difícil imaginar que houve um combate remotamente igual. E a missão da polícia, de qualquer polícia, é evitar ao máximo as mortes, seja de inocentes, policiais ou criminosos. Os policiais são treinados para isso. Seus tiros devem servir, antes de tudo, para inibir a ação dos bandidos e, em último caso, para mata-los.

Já ouvi dizer muitas vezes que vivo num “mundo rosa”, que a teoria é muito mais simples que a realidade e que, no mundo real, não dá para pegar leve com meliantes. Pode até ser verdade, mas isso não justifica a atuação da polícia brasileira, a que mais mata e mais morre. A mão violenta do Estado, criada para manter a ordem social e (vá lá) proteger os indivíduos, não pode descer ao nível daqueles que combate e não pode ter licença para matar. Seu trabalho deve ser analisado e criticado do mesmo jeito que criticamos outros serviços que o governo presta com péssima qualidade.

Mas, todos sabemos, não é assim que o brasileiro pensa, pelo menos em sua maioria. Para a maior parte da população, “bandido bom é bandido morto” e fim de papo. Por isso as mensagens de apoio e os parabéns aos policiais que executaram os suspeitos em São Paulo. Essas pessoas vêm na ação desregrada da polícia uma vingança pessoal contra os criminosos que os prejudicam e/ou tiram seu sossego. Como dito no começo deste texto, é compreensível que se tenha esse sentimento. Mas não é desculpável que se pense em segurança pública como forma de vingar, sem restrições, o mal que nos fazem os criminosos. Não se justifica o pensamento facínora e quase doentio de comentaristas de internet sedentos por sangue.

Se somos “cidadãos de bem” e estamos do lado certo, devemos manter a civilidade e resistir à tentação da barbárie. A realidade não é uma trama de filme americano que opões o bem ao mal, simplesmente. A realidade é complexa e nos impele a escolher o que queremos ser como sociedade e como enxergamos a nós mesmos.

Dez mortos com mais de 140 tiros é mais do que a razão pode suportar. É mais do que nossa humanidade nos permite aceitar. Apesar de todos os pesares, vivemos num Estado democrático de direito, que protege não só os bandidos que têm a chance de serem julgados, mas todos nós, que vivemos sob o contrato social. A barbárie não pode ser direcionada apenas a quem queremos – uma vez instalada, ela consome a todos: os bons, os maus, os inocentes e os criminosos.

Perfil do Autor

Luiz Vendramin Andreassa
Luiz Vendramin Andreassa
Jornalista e pós-graduando em Ciência Política, adora entender o mundo e o que faz as coisas serem como são. Tem o sonho de que o conforto material e o acesso ao conhecimento deixem de ser privilégios.

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