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Superar a polarização para construir caminhos

Em meio a tantos retrocessos (sociais, econômicos, ambientais) foi até difícil escolher um só tema para o texto. Tudo parece urgente e muitas vezes nos sentimos frustrados pela impressão de que somos absolutamente impotentes.

No entanto, há uma variável de enorme impacto nos rumos do país a qual temos todas as condições de mudar: a forma como debatemos política.

Esse é o tema que abordarei ao longo do texto e é a luz das ideias apresentadas que pretendo orientar os demais.

É tanta coisa acontecendo que fica difícil entender quais foram os fatores que nos levaram a essa crise, mas penso ser possível apontar as eleições de 2014 como o grande momento de ruptura. Foi uma eleição muito violenta, em que o marketing eleitoral venceu o debate honesto e prevaleceu uma total falta de pudor. Por um lado, o PT/PMBD escondendo e manipulando a situação do país para defender uma plataforma que sabia ser impraticável, através de pedaladas fiscais, e pelo outro o PSDB com um discurso de combate à corrupção, enquanto algumas das suas principais cabeças estão profundamente envolvidas na Lava Jato. Isso sem falar na indignação seletiva facilmente identificada em figuras como João Dória, que vocifera contra o Lula e a corrupção do PT, mas passa a mão na cabeça do Temer e defende a permanência em um governo [1] em que ética claramente não é prioridade.

Depois das eleições e da queda da Dilma, discutir política ficou praticamente impossível. As discussões normalmente giram em torno de troca de acusações e rótulos, nas quais o complexo cenário político brasileiro se reduz a descobrir quem é mais culpado: aquele que escolheu o PT/PMDB após uma gestão econômica desastrosa e corrupção generalizada ou quem apoiou um impeachment sob o argumento de passar o país a limpo e acabou levando ao poder um grupo que nem tenta demonstrar preocupação social e está disposto a qualquer coisa para não acabar na cadeia.

Nunca é demais lembrar da conversa entre o Jucá e o Machado[2]. Enquanto a gente polariza o país na ilusão de definir o responsável pela crise, os seus verdadeiros criadores garantem o “grande acordo nacional” para parar a Lava Jato[3]. Acordo aliás que vai indo muito bem, basta ver o vexame histórico do TSE ao não condenar uma chapa eleita através de uma fraude[4]; Aécio ainda como Presidente licenciado do PSDB; a cúpula do PT girando em torno das mesmas pessoas responsáveis politicamente pelo aprofundamento da corrupção como política de governo, dentre outros.

Uma visita rápida às páginas dos principais partidos e políticos envolvidos na crise dá uma ideia da situação: campanha para 2018 já em curso; inúmeras acusações aos adversários, silêncio sobre os casos de corrupção dos amigos e poucas propostas reais para superar a crise.

Então, como sugere o nome da página, pensemos um pouco: se foram essas pessoas que causaram a crise, por que continuamos replicando o discurso delas?

Ao replicar esse tipo de discurso, são justamente os piores políticos e as mais condenáveis práticas políticas que se fortalecem, ou alguém imagina algum espaço para renovação entre patos infláveis, pixulecos e ovadas?

Tive a oportunidade de passar um ano na Alemanha e minha sensação era a de que é um país tão conservador quanto o nosso. Acontece que lá nenhuma mulher morre por precisar fazer um aborto clandestino [5]; ninguém vai preso por estar com um baseado na mão (muito menos uma garrafa de Pinho Sol)[6]; há ciclovias por toda a parte[7]; deficientes físicos circulam sem dificuldade[8], etc.

Isso acontece em grande parte porque lá as pessoas são mais capazes de estabelecer consensos mínimos e discutir política com maturidade, enquanto por aqui muitas vezes reduzimos questões complexas a memes.

Outra grande diferença é que no Brasil usamos as redes sociais de uma forma bem mais intensa, com muita gente se manifestando politicamente através de textos próprios, compartilhando notícias, reagindo a publicações, etc. Essa característica tem um enorme potencial para construir novos caminhos, mas isso só vai ocorrer quando nos conscientizarmos da nossa responsabilidade nesse novo mundo onde ser intelectual deixou de ser atribuição de pequenos grupos.

É sabido que existe uma relação de grande confiança entre as pessoas dos nossos círculos sociais. Temos como certo que nossos amigos e familiares são pessoas boas e que de forma alguma possam ter qualquer relação com os problemas do país. Então, quando algum deles posta no Facebook ou manda alguma coisa no Whatsapp sobre política, a nossa tendência é acreditar e seguir a mesma opinião.[9]

Sendo assim, se você compartilhar notícias sem verificar se são verdade ou não; se reduzir as pessoas a rótulos (coxinha, petralha, isentão e por aí vai); se simplificar discussões complexas, você estará causando um impacto negativo sobre as pessoas que confiam em você e também alimentará a crise política.

Sugiro a todos pensar com carinho na reflexão do Vladimir Safatle: “Na crise, o papel do intelectual se potencializa. Há aqueles que vão se aferrar às suas posições e aqueles que vão buscar novas referências. O que se espera de um intelectual é o questionamento dos discursos hegemônicos” [10].

Estou convencido de que para começar uma nova etapa no Brasil é preciso superar a cisão causada pelas eleições de 2014 e pelo Impeachment. É urgente que a nossa dedicação de agora em diante seja mais em apontar caminhos do que culpados. A renovação está procurando seu espaço, mas esse processo depende em muito da nossa capacidade de mudar de atitude. É hora de elevar o nível do debate, parar com rótulos vazios e, principalmente, admitir que a grande maioria de nós, em algum momento, apoiou pessoas ou ações que se mostraram grandes erros, mesmo que nossas intenções fossem as melhores.

Espero contribuir para dar visibilidade a debates, movimentos e iniciativas escondidos pela polarização e que podem nos indicar caminhos para construir o futuro do país. A política precisa se tornar um lugar de debater ideias, não de destruir pessoas.

Conto com vocês para fazer parte disso também, bons debates para nós!

Perfil do Autor

Rafael Drumond
Rafael Drumond
Estudante de Engenharia de Produção na USP/São Carlos e membro do movimento Acredito.

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