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Bolsonaro e Black Mirror – Momento Waldo

Escrevi um artigo na minha página há umas semanas falando de Bolsonaro como um “coringa” para os inconformados, como um símbolo da busca pelo “antipolítico” ou “não-político” por uma população com cada vez mais aversão aos políticos.

Escrevi o seguinte no texto anterior: “Tenho a impressão, pelo que eu escuto em sala de aula e fora dela, que Bolsonaro é um coringa que serve para diversas situações. Você está ‘puto’ com os políticos ladrões? Bolsonaro! Você é contra a desordem, a violência, os direitos humanos, que só defende bandido? Bolsonaro! Você é contra o fim da família? Bolsonaro! Você quer renovação na política? Bolsonaro! Ou seja, se você é contra ‘tudo isso que está aí’, Bolsonaro!

A escolha do eleitor não é somente por um cálculo racional do que é melhor ou pior para ele. É também emocional e os símbolos que ele tenta representar, caem bem para uma sociedade completamente decepcionada com os políticos e carente de um líder, forte, para por “ordem na casa”.

Nessa semana, ao assistir a mais um episódio da série Black Mirror, “Momento Waldo”, a comparação foi inevitável.

Nesse episódio, um comediante dubla um “urso animado”, Waldo, num programa de TV. Esse urso é muito engraçado, escrachado e politicamente incorreto, que fala obscenidades absurdas e faz comentários sobre política sempre escrachando os políticos.

Waldo vai se tornando mais e mais popular quanto mais debocha dos políticos. Os produtores de TV então decidem lançar o Waldo como candidato nas eleições suplementares de Stentonford, uma província britânica, só para ganhar mais visibilidade ao personagem.

No entanto, Waldo, com seu estilo “antipolítico” vai angariando mais e mais apoio dos eleitores. Em um debate na TV, um candidato tenta chamar as pessoas à razão alegando que estão debatendo com um urso animado e argumenta: “É fácil o que ele (Waldo) faz. Ele zomba e quando ele não consegue pensar numa piada autêntica, ele só xinga”. Waldo então responde com mais obscenidades e grosserias dizendo que os políticos são todos “farinha do mesmo saco, etc.” e é aplaudido pela plateia. A opinião pública se volta então contra o político e a favor de Waldo.

Num diálogo mais à frente, o diretor do programa e responsável pela campanha do Waldo diz para o comediante que anima o Waldo (que não deseja fazer carreira política com o personagem): “está todo mundo irritado com o status quo e o Waldo fala por ele”, em outro momento diz: “não precisamos de políticos”.

Em seguida se encontram com um estadunidense que se apresenta como sendo da “agência”, sem especificar qual (CIA?).

Esse é o diálogo central do episódio. O homem da “agência” diz: “O que você está fazendo com Waldo é incrível… Ele pode ser a fachada política perfeita”. Depois acrescenta: “No momento ele é a antipolítica, que já é uma posição política por si só, certo? Mas ele poderia comunicar qualquer tipo de conteúdo político sem as desvantagens de um mensageiro humano”

O ator argumenta: “Mas nós não vamos vencer”. Então o homem da “agência” responde: “… é claro que não vão vencer. Vocês foram grosseiros logo de cara. Não têm aquela base substancial a oferecer e toda aquela coisa niilista de ‘a democracia é uma merda, uma loucura e tal’, mas com uma mensagem de esperança direcionada que podemos fornecer, fortalecendo os que não votam, sem assustar o povo sem a sua nova plataforma, vocês têm um produto de entretenimento político global que as pessoas, de fato, querem. Poderiam usar isso no mundo todo”.

O ator que anima Waldo*percebe que está sendo usado, abandona o personagem e pede às pessoas para não votarem em Waldo, dizendo que ele é um insulto, etc. Então, o diretor do programa assume o personagem e pede para as pessoas não acreditarem no ator, para acabarem com ele, etc.

Resultado: Waldo fica em segundo lugar nas eleições, mesmo seu animador tendo abandonado o personagem.

Na divulgação dos resultados, mostrando o poder de influenciar as pessoas, Waldo pede para jogarem sapatos no político eleito, que é prontamente atendido pelos seus eleitores, revelando um fanatismo destes. O ator original de Waldo assiste aparentemente pasmo num hospital ao que está se passando.

Em seguida, o ator de Waldo está num futuro aparentemente fascista onde virou mendigo e assiste na TV, Waldo se espalhar pelo mundo e se apresentando como “mudança”.

Bolsonaro é o nosso Waldo, o nosso “antipolítico” que se apresenta como “mudança”, “diferente de todos os que estão ai”, que usa, tal como Waldo, frases repetidas, zombarias, escárnio, o senso comum, que não tem projeto político, mas capitaneia o inconformismo adolescente, a aversão aos políticos ao se apresentar como “antipolítico” (embora seja político há quase três décadas).

Bolsonaro se transformou numa espécie de “coringa” para todas as situações de inconformismo, mesmo que não tenha nenhuma lógica nisso.

Essa semana ouvi uma pessoa fazer o seguinte comentário ao ouvir que a reforma trabalhista reduziria seus direitos: “Tá vendo, tem que votar no Bolsonaro pra acabar com isso!”. Ele não sabe que Bolsonaro apoia a reforma trabalhista e previdenciária. Não sabe o que ele propõe politicamente.

A questão é que Bolsonaro não é real para essas pessoas. É um mito. Então, o que os levam a se identificar com ele não é nenhum atributo humano, como a razão, a lógica, a coerência, o projeto político, etc. É o fato de ele representar algo genérico e que pode ser qualquer coisa: a revolta contra tudo e todos.

Esse episódio de Black Mirror*mostra os perigos do inconformismo vazio. Mostra que isso pode nos levar ao fascismo num mundo não muito distante.

Perfil do Autor

Vitor Hugo Fernandes
Vitor Hugo Fernandes
Professor de sociologia em escolas públicas e particulares no Rio de Janeiro. Mestre em políticas públicas e formação humana (UERJ).

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