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A Terra é plana!

Imagem: LA Johnson/NPR

Sentado sobre a areia da praia, voltado para o oceano que se abre na minha frente, consigo avistar o horizonte, uma linha reta se estende por todo o meu campo de visão, demarcando os limites entre o céu e o mar. Uma visão semelhante do mundo tinha Aristóteles e Pitágoras, mirando o Mediterrâneo, por volta dos 300 a.C. A sensação é óbvia: estamos sobre um tablado, um piso de comprimento infinito, exceto por algumas montanhas ou ilhas no caminho. Nosso sistema sensorial age, nosso cérebro processa a perspectiva captada por nossos olhos e tira sua primeira conclusão, a terra é plana! Porém, meu caro leitor, você pode ficar surpreendido como sua mente é falha e amadora, principalmente para questões não triviais, e como um pouco de esforço cognitivo pode alterar a visão que temos do mundo e das situações cotidianas. Nesse caso vamos conversar sobre o planeta e, assim como os Gregos antigos, superar o impulso involuntário de planificar nosso globo mãe.

Por que a terra é plana?
Basicamente o cérebro humano é o mesmo desde a Idade da Pedra[1]. De lá para cá, pouco se alterou na biologia do órgão comandante da nossa espécie, desde nossos tempos de caçadores e coletores primitivos. Reagimos rapidamente aos estímulos provenientes de eventos externos sem muita reflexão sobre o que está realmente acontecendo. A seleção natural fez sua parte: os Sapiens que agiam dessa forma sobreviveram aos ataques de leões na savana e passaram seus genes adiante, enquanto os pobres retardatários viraram alimento dos felinos e sua falta de reflexos morreu com eles. Nossos ancestrais detectavam com facilidade movimentos nos arredores, seja uma pedra prestes a cair de um penhasco ou o local no gramado onde o coelho saltador pousaria após o pulo, pronto para ser apanhado. Em outras palavras, a física newtoniana era de entendimento imediato da nossa espécie primitiva. Felizmente herdamos essa capacidade, o que nos permite dirigir um carro em alta velocidade ou andar de bicicleta sem dificuldades, por exemplo. Mas nossa compreensão da macrofísica e da nanofísica, dos grandes corpos celestes ao núcleo dos átomos, é pouco intuitiva e exige esforço cognitivo, capacidade de abstração e grandes doses diárias de matemática.

Em um país onde o conhecimento de matemática aplicada não excede 4% da população [2], fica clara a tendência de aparecimento dos terraplanistas. Eratóstenes mediu o raio do planeta experimentalmente 2200 anos em um experimento simples (vale uma pesquisa no YouTube, não?), mas que transcendia o ceticismo. Estações do ano, passagem dos dias, fases da lua, por exemplo, são observadas/sentidas a todo instante pelos seres sencientes do planeta azul. No entanto, a compreensão básica das leis da inércia [3], formação dos astros e gravitação deve ser compreendida com base em experimentos realizados e replicados por milhares de cientistas ao longo dos anos e em modelos matemáticos muito bem definidos. Entendido, não sentido.

Por que dizem que a Terra é redonda?
Não é necessário nada além de uma leitura do primeiro módulo de mecânica clássica [4] para concluir que a terra plana viola alguns dos princípios básicos da física newtoniana (momentos de inércia e efeito giroscópico são boas leituras). Aristóteles e seus contemporâneos já tinham como certa a ideia da esfericidade do planeta, conceito que expandiu-se durante o período helenístico e perdurou até a modernidade (pesquisas contemporâneas destacam que mesmo durante a Alta Idade Média, na eclosão da revolução científica, quando os heliocentristas eram perseguidos pela Igreja, os intelectuais da época admitiam que o formato grego do planeta fazia sentido [5]). É em um contexto de pós-verdade que tentaram passar um rolo compressor sobre a Terra.

Nossas ideias e visões do mundo são formadas com base em nossas emoções e sentimentos. Ratificá-las ou refutá-las é um trabalho cognitivo posterior e deve ser realizado de forma consciente[6]. No momento da modernidade em que vivemos (em especial com a ascensão das redes sociais e da internet) juntar-se a um grupo de indivíduos com ideias semelhantes às suas é algo realizado automaticamente por algoritmos internos das grandes redes, tornando plausível a validação de ideias absurdas. É dentro dessas bolhas que a terra plana e outras teorias conspiratórias ganham força: unindo a pós-verdade e os indivíduos pouco dotados de conhecimento científico de qualidade, em ambiente enviesado para confirmação das ideias e falta de confronto de opiniões.

Faça você mesmo!
É dito aos ventos que a internet não criou os idiotas, mas uniu e deu voz a eles. Porém, nenhuma hipótese deve ser descartada antes de ser testada. Por isso proponho um desafio aos terraplanistas: formule um novo modelo ao nosso adorado planeta Terra. Sobre esse novo modelo, aplique os conceitos da Física conhecidos e expanda o conhecimento da humanidade sobre o nosso lar. Francis Bacon já dizia que conhecimento é poder. Enquanto os recursos naturais e as vidas humanas são limitadas, o conhecimento pode expandir-se infindavelmente. Cientistas não temem a dúvida, por mais indigesta que ela pareça, por ser fundamental para a expansão do saber científico. A certeza, na maior parte dos casos, é uma limitação. Por isso, meu caro conspiracionista, não é a mim que você deve se dirigir e tentar convencer, mas a toda a humanidade e a comunidade científica. Alguns fizeram isso, como Galileu, e mudaram o mundo. Quem garante que você não pode fazer o mesmo?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] Sapiens – Uma Breve História da Humanidade; Yuval Noah Harari, Ed. Harper, 2011
[2] Ensino de matemática no Brasil; disponível em <https://goo.gl/CbTBzy>
[3] Inércia e giro do planeta, disponível em <https://goo.gl/fDNNXq>
[4] Fundamentos de Física 1 – Mecânica; David Halliday, Ed. LTC, 2016.
[5] The Myth of the Flat Earth; Jeffrey Burton Russell; disponível em <https://goo.gl/l27nKK>
[6] Rápido e devagar: Duas formas de pensar; Daniel Kahneman, Ed. Farrar, 2011

Perfil do Autor

Pedro Guilherme Contieri
Pedro Guilherme Contieri

Leitor, escritor e agregador de conteúdo nessa nuvem de dados

em movimento que chamam de realidade. Mecatrônico de formação, acha que os algoritmos vão dominar o mundo. Isso se ainda não o fizeram.


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